Martinismo e a O.C.R.C.

Alguns meses após ter criado a Ordem Cabalística da Rosa-Cruz, ou seja, mais de vinte e quatro anos após a morte de Saint-Martin, Papus e Chaboseau, ambos membros da direção da Ordem descobriram que haviam recebido uma filiação que remontava ao célebre teósofo.

Papus afirmou ter sido iniciado em 1882 ao grau de S.I. « Superior Incógnito » por Henri Delaage que reivindicou uma ligação direta com Saint-Martin pelo sistema de « livres iniciações ». Quanto a Chaboseau, sua filiação lhe havia sido transmitida por sua tia Amélie de Boisse-Mortemart. Ambos decidiram se iniciar mutuamente e imediatamente informaram aos outros responsáveis da Ordem. Papus e Chaboseau conferiram essa iniciação essencialmente espiritual de Louis-Claude de Saint-Martin à Ordem Cabalística da Rosa-Cruz. Como declarou Delaage, ela foi materializada somente por « duas letras e alguns pontos ». 

Imediatamente consciente da riqueza dessa herança, a Ordem deu um corpo a essa transmissão a associando à iniciação de « Filósofo Desconhecido » do sistema maçônico de H.-T. de Tschoudi. Depois essa cerimônia de « Superior Incógnito » se tornou o grau preliminar da Ordem. A versão maçônica que era originalmente essencialmente simbólica foi assim ativada pelos conhecimentos operativos dos membros da Ordem. A Estrela Flamejante foi então capaz de irradiar plenamente de novo. 
A partir desse momento, todo novo membro da Ordem Cabalística da Rosa-Cruz deveria primeiro ser recebido Superior Incógnito, Adepto de Saint-Martin.  
Esse primeiro grau de S:. I:. constitui o fundamento moral e espiritual da Ordem. Ele é o pré-requisito. 

Vamos lembrar que Louis-Claude de Saint-Martin fundou uma "pequena escola em Paris" alguns anos após a morte de seu mestre Martinès de Pasqually. Essa sociedade (comunidade) tinha por objetivo a espiritualidade mais pura. Ele integrou as doutrinas de Martines às suas e instaurou como único grau o de S:. I:.. Esse título foi uma reprise da denominação distintiva da dignidade suprema dos membros do tribunal Soberano da Ordem dos Elus-Cohens. Na maioria das sociedades secretas a iniciação se fazia por graus. Aqui, Saint-Martin escolheu instaurar uma transmissão antes de tudo moral e espiritual. Era para receber a chave que abre a porta interior da alma pela qual se comunica com as esferas do Espírito. Nessas alturas, nenhuma condição, nenhum estado intermediário. Era somente necessário uma manifestação do desejo, um comprometimento da alma e um despertar da verdadeira vontade.

Os princípios eram ao mesmo tempo idênticos e diferentes aos da Ordem dos Elus-Cohens. As técnicas e as preparações rituais, por exemplo, sempre foram relativamente simples na escola de Saint-Martin. Esse último considerava que a preparação é o resultado da vida que se leva interior e exteriormente. Nessa via mística, ao contrário de algumas etapas mágicas e teúrgicas, é nosso trabalho interior diário, nossa "atitude moral de pureza" que toma o lugar da preparação. Isso significa que todas as preparações rituais são inúteis para quem não pratica esse caminho interior. É a única condição à aproximação de uma verdadeira pureza interior. 

É por essa razão que a Ordem Cabalística da Rosa-Cruz sempre considerou esse grau como condição moral à formação empreendida. Nesse caso não era necessário fazer uma Ordem. Essa primeira etapa de S.I. é, portanto, fundamental e paradoxalmente só precisa de formação teórica mínima. Esse estado é espiritual e constitui um caminho interior indefectível. Como se pode imaginar que se deve estudar cabala, teologia ou qualquer outra ciência para se comprometer moralmente em tal caminho interior. O intelectual nada tem a ver com esse tipo de tomada de consciência. A formação é de outra Ordem, objetiva graus e etapas diferentes. 
Eis o que foi a Ordem Martinista das origens.

Não foi até Papus e seus sucessores que nasceu uma vontade de fazer do martinismo uma ordem estruturada em graus levando à única iniciação transmitida por Saint-Martin, a de S.I. (Superior Incógnito).

Alguns anos mais tarde, em 1891, a Ordem Cabalística da Rosa-Cruz pediu a Papus para desenvolver a iniciação de Superior Incógnito sob a forma de uma Ordem exterior cujo papel essencial seria a espiritualidade e a cavalaria cristã. Papus escolheu estruturá-la segundo a escala maçônica em três graus. A única iniciação real foi, evidentemente, a última, a de S.I. (Superior Incógnito). Nenhuma ambiguidade na missão confiada a Papus. Tratava-se de permitir a um número maior de pessoas descobrir o pensamento de Saint-Martin e  empreender o caminho moral representado na forma mais pura de cavalaria cristã.

Essa estrutura deu uma perenidade certa à Ordem Martinista que continuou a se desenvolver depois da morte de Papus e a se ramificar seguindo os caprichos de sua história. 

De seu lado, a Ordem Cabalística da Rosa-Cruz, fiel a seu caminho, continua a aceitar em seu seio candidatos que já tenham recebido a iniciação de Superior Incógnito ou a lhes transmite segundo a forma original como  prévio a seu caminho empreendido em seu seio.

O atual Il. Grande Patriarca Rosa-Cruz Jean-Louis de Biasi recebeu o conjunto de filiações martinistas, o que faz da Ordem Cabalística da Rosa-Cruz hoje em dia uma das mais legítimas em relação ao Martinismo. 

Louis Claude de Saint Martin
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