O Martinismo

Nascimento do Martinismo

O martinismo é uma corrente espiritual do teósofo francês Louis Claude de Saint-Martin. Contrariamente ao que é frequentemente escrito, esse último jamais fundou nenhuma seita, nem ordem iniciática. Sua obra é essencialmente teosófica e filosófica.

Nascido em Amboise em18 de janeiro de1743, o marquês Louis-Claude de Saint-Martin tornou-se advogado, antes de entrar para o exército. Munido de uma patente de oficial, ele integrou o regimento de Foix que tinha guarnição em Bordeaux, juntando-se assim ao rico meio iniciático do Sudoeste da França sobre o que falamos na visão histórica da Ordem. Foi nessa cidade que ele encontrou M. de Grainville e foi iniciado na Ordem Maçônica dos Elus-Cohens fundada por Martines de Pasqually. Maçom desde 1765, Saint-Martin ficou deslumbrado por Martines do qual se tornou secretário. Alto dignatário Cohen, promovido ao grau supremo de « Réau-Croix », Saint-Martin abandonou alguns anos mais tarde suas atividades maçônicas, sem renegar sua iniciação « cohen ». Ele se consagrou aos seus estudos metafísicos, tornando-se mais tarde o maior dos teósofos franceses de seu tempo (termo a ser tomado no sentido religioso do século XVIII).

Quando Saint-Martin descobriu e traduziu com verdadeiro entusiasmo a obra de Jacob Böhme, ele não deixou de fazer a conexão com o gnosticismo iniciático e teúrgico de seu antigo mestre Martines de Pasqually. Ele disse que Martines tinha a « chave ativa » de « tudo o que nosso caro Böhme expôs em suas teorias ». Esse é um « excelente casamento o da nossa primeira Escola e de nosso amigo Böhme. » Mas Saint-Martin desejava colocar a teurgia sob o controle da mística. Essa última, segundo ele, vai direto à região superior, enquanto que a primeira se exerce em uma região onde o Bem e o Mal são confundidos e misturados.

Saint-Martin escolheu para o nome de autor o de « Filósofo desconhecido ». Sob esse pseudônimo ele publicou obras importantes, eis alguns títulos: Dos Erros e da Verdade; A Tábua Natural das relações que existem entre Deus, o Homem e o Universo; O Homem de Desejo; Ecce Homo; O Crocodilo; Ministério do Homem Espírito, etc.

Pela magnitude de sua obra e a profundeza de sua visão interior, o Filósofo desconhecido poderia com justiça ser chamado « Swedenborg francês ». A maioria de suas obras foram escritas entre os anos 1775 e 1803, ano de sua morte ocorrida em Châtenay, perto de Paris.

A riqueza de sua obra, associada a seus estudos com Martines de Pasqually, levou muitos discípulos entre os maçons ocultistas de seu tempo e contribuiu para fazer conhecer o sistema de Jacob Böhme.

 

O Martinismo e a Ordem Kabbalistica da Rosa-Cruz

Alguns meses após ter criado a Ordem Kabbalistica da Rosa-Cruz, ou seja, mais de vinte e quatro anos após a morte de Saint-Martin, Papus e Chaboseau, ambos membros da direção da Ordem descobriram que haviam recebido uma filiação que remontava ao célebre teósofo.

Papus afirmou ter sido iniciado em 1882 ao grau de S.I. « Superior Incógnito » por Henri Delaage que reivindicou uma ligação direta com Saint-Martin pelo sistema de « livres iniciações ». Quanto a Chaboseau, sua filiação lhe havia sido transmitida por sua tia Amélie de Boisse-Mortemart. Ambos decidiram se iniciar mutuamente e imediatamente informaram aos outros responsáveis da Ordem. Papus e Chaboseau conferiram essa iniciação essencialmente espiritual de Louis-Claude de Saint-Martin à Ordem Kabbalistica da Rosa-Cruz. Como declarou Delaage, ela foi materializada somente por « duas letras e alguns pontos ». 

Imediatamente consciente da riqueza dessa herança, a Ordem deu um corpo a essa transmissão a associando à iniciação de « Filósofo Desconhecido » do sistema maçônico de H.-T. de Tschoudi. Depois essa cerimônia de « Superior Incógnito » se tornou o grau preliminar da Ordem. A versão maçônica que era originalmente essencialmente simbólica foi assim ativada pelos conhecimentos operativos dos membros da Ordem. A Estrela Flamejante foi então capaz de irradiar plenamente de novo.

A partir desse momento, todo novo membro da Ordem Kabbalistica da Rosa-Cruz deveria primeiro ser recebido Superior Incógnito, Adepto de Saint-Martin.  Com esse compromisso moral realizado, os estudos e iniciações da Ordem poderiam começar.

O atual Il. Grande Patriarca Rosa-Cruz Jean-Louis de Biasi recbeu o conjunto de filiações martinistas, o que faz da Ordem Kabbalistica da Rosa-Cruz de hoje em dia uma das mais legítimas em relação ao Martinismo.

 

Nascimento da Ordem martinista

Alguns anos mais tarde, em 1891, a Ordem Kabbalistica da Rosa-Cruz pediu a Papus que desenvolvesse a iniciação de Superior Incógnito sob a forma de uma Ordem exterior cujo papel principal seria a espiritualidade e a cavalaria cristã.  Papus escolheu estruturá-la segundo a escala maçônica em três graus. A única verdadeira iniciação foi evidentemente, a última, a de S.I. (Superior Incógnito). Nenhuma ambiguidade na missão confiada a Papus. Foi para permitir a um maior número de pessoas descobrir o pensamento de Saint-Martin e empreender o caminho moral representado na mais pura forma de cavalaria cristã.

Essa estrutura deu certa perenidade à Ordem Martinista que continuou a se desenvolver depois da morte de Papus e a se ramificar seguindo os caprichos de sua história.

Por seu lado, a Ordem Kabbalistica da Rosa-Cruz, fiel à sua abordagem, continuou a aceitar candidatos que já tivessem recebido a iniciação de Superior Incógnito ou a transmitiu segundo sua forma original como prévia ao caminho empreendido em seu meio.

 

A doutrina Martinesista

Devemos começar com uma apresentação sucinta da doutrina de Martinès de Pasqually. Nós o encaminhamos para análise adicional aos historiadores franceses de referência, Robert Amadou, Serge Caillet e Antoine Faivre.

G.Van Rijnberk apresenta assim o ensinamento de: “Para se formar uma ideia de seu ensinamento ainda temos três tipos de documentos: 1° Seu “Tratado da Reintegração dos Seres em suas primeiras propriedades, virtudes e potências espirituais e divinas" ; 2° Os rituais e catecismos de sua Ordem dos Elus-Cohens; 3° As cartas de suas operações mágicas enviadas pelo Mestre a Willermoz.

O Tratado contém a doutrina secreta (que era reservada unicamente aos Réau-Croix da Ordem): Trata da queda do espírito, da queda do Homem na matéria, da História oculta dos Cosmos e da Terra, do papel esotérico do Mal e das potências demoníacas, e enfim, da possibilidade de um retorno da humanidade a seu primeiro estado de glória.

Os rituais e catecismos da Ordem expõem essa mesma doutrina, mas velando-a em bordados e ornamentos de detalhes míticos seguindo o procedimento maçônico. Eles também ensinam como o homem pode se purificar e tentar ser digno de usufruir, depois da morte, da totalidade de seus privilégios primitivos. 

Finalmente as cartas de Willermoz ensinam os meios teúrgicos para entrar em contato com os espíritos das esferas superiores e supremas." [1]

“A doutrina de Martinès é uma dotrina da reintegração dos seres. Reintegração implica expulsão prévia, drama e desfecho. Pelo culto e práticas operativas (evocações), o homem deve obter sua reconciliação com Deus, depois sua reintegração a seu estado primitivo.”

É interessante notar que essa doutrina poderia em certos pontos se aproximar dos conceitos herméticos da tradição neoplatônica. Entretanto o discurso é frequentemente confuso, pesado e sobrecarregado de voltas torcidas. Não encontramos nada do estilo que foi o dos autores gregos e romanos.

Para Martinès, Deus emanou seres espirituais dos quais alguns vão ceder ao orgulho e tentam se igualar a Deus querendo eles próprios se tornarem criadores. Para puni-los, o Criador os baniu do mundo espiritual no qual estavam. Deus criou em seguida um andrógino, Adão, para dominar esses espíritos. Mas por seu lado, ele se tornou a vítima querendo criar. Ele então foi exilado sobre a terra sem contato com Deus e deve a partir desse momento utilizar os espíritos intermediários para encontrar essa comunicação com seu Criador e se reconciliar com ele. Esse é o objeto de todas as operações de teurgia ensinadas por Martinès. Ele poderá em seguida ser reintegrado em sua forma e funções originais e em seguida trazer todas as criaturas afastadas de Deus.

Evidentemente muitos detalhes e episódios enriquecem esse mito e estruturam as práticas teúrgicas.

Assim são apresentadas sob uma forma muito simples a doutrina e as ideias de Martinès. Saint-Martin vai, como já dissemos, rejeitar a via exterior sem por isso renegá-la. Entretanto, ele reconheceu sempre o valor e a eficácia dos estudos e ensinamentos de seu mestre mas considerava essa via muito perigosa. Sua sensibilidade o guiou então para outros horizontes. Sua doutrina, no entanto, permaneceu a mesma  em substância, isto é, sobre os conceitos da queda do espírito e do homem na matéria e a possibilidade de um retorno da humanidade a seu primeiro estado de glória. É o caminho mais conhecido pelo nome de reintegração ou segundo as palavras dos Réaux+Croix, o da reconciliação.

A doutrina Martinista

 

Vamos então olhar para o ensinamento e a progressão do pensamento de Saint-Martin. R. Amadou escreveu: “ Saint-Martin foi Maçom, Saint-Martin foi Elu-Cohen, Saint-Martin se juntou ao Mesmerismo. au Mesmérisme. Ele se colocou de bom grado aos ritos e costumes dessas sociedades. Ele se conduziu como membro irrepreensível de fraternidades iniciáticas. Mas essa atitude somente representa uma época de sua vida.”[2] Esse é um ponto crucial que deve ser observado sem extrapolar. O secretário de Martines, praticante da teurgia se afastou disso. "Mestre, disse ele um dia a Martines, é preciso tanto para orar a Deus?" Essa tendência cada vez mais forte nele o venceu. De fato, acima de tudo, sua busca era a de Deus. Constantemente vai levá-lo à sede do Bem, do Belo e do Verdadeiro que somente Deus pode satisfazer. Assim sua evolução interior o faz se afastar dos fenômenos para se unir à via interior que mais tarde será chamada de via mística ou cardíaca. Depois de ter praticado os ritos de Martines, ele leu os autores na moda, Voltaire, Rousseau, Montesquieu dos quais falamos antes, "escritores bem pouco místicos." Mas Saint-Martin se tornou capaz de pensar por si mesmo, elaborar sua obra, de sintetizar seu pensamento.

Depois, “se produziu a revelação que transformou sua vida: Saint-Martin descobriu Jacob Böhme. ”[3] Nós dizemos transformação mas devemos ver aí uma verdadeira iluminação interior que modificou o pensamento e a vida de Saint-Martin até sua morte. A mensagem de Jacob Böhme refletiu sobre o filósofo desconhecido, o purificou lhe trazendo uma verdade que nenhuma das práticas do Elus-Cohens poderia lhe trazer. Esse foi o aparecimento no esoterismo francês da via interior por sua obra primeiramente, mas também pela tradução que ele fez de algumas obras de Böhme. Analisar em detalhes o pensamento do Filósofo Desconhecido nos levaria muito longe nessa apresentação da via martinista, por isso vamos dar a visão mais concisa possível do que era para ele a via interior, a busca da Sophia divina. Dessa maneira as grandes linhas de seu pensamento serão traçadas, e substituídas em sua visão pessoal. Vamos primeiramente examinar o que ele escreveu de Jacob Böhme na introdução de sua primeira tradução:

“ Jacob Böhme, conhecido na Alemanha sob o nome de Filósofo Teutônico, e autor de "A Aurora Nascente", assim como de várias outras obras teosóficas, nasceu em 1575, em uma pequena cidade da Alta Luzace, chamada a antiga Seidenburg, de meia milha de distância de Gorlitz. Seus pais eram da última classe do povo, pobres, mas honestos. Eles o ocuparam, durante os primeiros anos a cuidar do gado. Quando estava um pouco mais avançado na idade, eles o enviaram à escola, onde aprendeu a ler e escrever; e daí o colocaram como aprendiz de um mestre sapateiro em Gorlitz. Ele se casou com 19 anos, e teve quatro filhos, a um dos quais ensinou sua profissão de sapateiro. Ele morreu em Gorlitz em 1624, de uma doença aguda.

Enquanto ele era aprendiz, seu mestre e mestra estavam ausentes no momento, um estranho vestido muito simples, entrou na loja, e, pegando um par de sapatos, pediu para comprá-los. O jovem homem não se acreditando na condição de vendê-los, recusou a venda; mas o estranho insistindo, ele fez um preço excessivo, esperando com isso se abrigar de qualquer reprovação por parte de seu mestre, ou desgostar o comprador. Esse deu o preço pedido, pegou os sapatos, e saiu. Ele parou a alguns passos da casa, e com uma voz alta e firme, disse: “ Jacob, Jacob, vens aqui ”. O jovem ficou surpreso e assustado ao ouvir esse estranho que lhe era completamente desconhecido, o chamar assim pelo seu nome de batismo, mas tendo se recuperado, foi até ele. O estranho, com um ar sério mas amistoso, olhou para ele, os fixou com um olhar faiscante de fogo, pegou sua mão direita. E ele lhe disse: “ Jacob, tu és pequeno; mas serás grande, e te tornarás outro homem, tanto que serás para o mundo objeto de surpresa. É porque és piedoso, temes a Deus e reverencias sua palavra; sobretudo, lês cuidadosamente as santas escrituras, nas quais encontrarás consolos e instruções, porque terás muito a sofrer; irás suportar a pobreza, a miséria, e as perseguições mas sejas corajoso e perseverante, porque Deus te ama e te é propício. ”

Sobre isso o estranho apertou sua mão, olhou para ele com olhos penetrantes e se foi, sem haver pistas de que se veriam de novo.

Depois dessa época, Jacob Böhme recebeu naturalmente, em várias circunstâncias diferentes desenvolvimentos que lhe abriram a inteligência sobre diversos assuntos, que tratou em seus escritos.” [4]

Estamos aqui em um cenário totalmente diferente do que ele conhecia com Martines. Não é sobre um teórico do oculto ou de um mestre sábio em conhecimento mágico, mas de um simples sapateiro, de um homem sem grandes conhecimentos intelectuais. Deve-se perceber que no pensamento do século XVIII tal homem contrasta com o meio esotérico ou místico. Não encontramos iniciações cerimoniais e  aprendidas; somente o encontro entre dois homens, um sapateiro e um estranho que lhe abriu ou lhe revelou a única porta que leva ao reino do Espírito. 

Saltando então por essa abertura todos os conhecimentos extraordinários desse místico que iluminaram grande número de indivíduos e em particular Saint-Martin. Assim, a mensagem do sapateiro de Gorlitz guiou seu pensamento, o orientou, o sustentou em sua pesquisa e lhe abriu as portas do "além do espírito" fora das armadilhas dos filósofos. Ponto importante da doutrina, a Sophia se situa no centro do debate entre muitos teósofos desse século.

Vamos citar para situar essa ideia, um fragmento do livro dos Provérbios VIII-22.23 e 30.31 “O Eterno me possuiu no começo de sua atividade. Antes de suas obras mais antigas. Eu fui estabelecido desde a eternidade. Desde o começo, antes da origem da terra. [...] Eu estava na obra com ele e dia a dia eu fazia suas delícias, jogando na frente dele o tempo todo, jogando sobre a superfície da terra, e encontrando minhas delícias entre os seres humanos." Nessa perspectiva, Koyré escreveu: “ A sabedoria divina é, por assim dizer, o plano, o modelo preexistente da criação. Ela não criou a si mesma, ela não gerou. Ela é o mundo ideal ou sua imagem. Um ideal e não uma ficção, e é porque ela possui certa realidade; ela representa a harmonia das potências criadoras de Deus... ” Böhme escreveu: “ Essa virgem é uma semelhança de Deus, sua imagem, sua Sabedoria na qual o espírito se vê e na qual o Eterno revela suas maravilhas,... ”[5] “ A Sabedoria divina chamada Sophia, Verbo eterno, Glória e Esplendor de Deus, é, portanto, um espelho, um quarto termo que Deus se opõe para poder se refletir, se realizar e tomar plena consciência de si mesmo" [6]. Na introdução ao "Ministério do Homem Espírito" (Paris 1802) ele resumiu com uma notável clareza as bases dessa tradição sofiológica ocidental; representando o essencial da ideia que Saint-Martin fez dessa noção, esse texto é de grande importância: “ A natureza física e elementar atual é somente um resíduo e uma alteração de uma natureza anterior, que J. Böhme chama de natureza eterna; (...) essa natureza atual uma vez formada em toda sua circunscrição, o império e o trono de um dos príncipes angélicos, chamado Lúcifer; (...) esse príncipe só queria reinar pelo poder do fogo e da cólera, e colocou de lado o reino do amor e da luz divina, que deveria ter sido sua única chama, inflama toda a circunscrição de seu império; (...) a sabedoria divina opõe a esse incêndio uma potência temperante e refrigerante que contém esse incêndio sem extingui-lo, o que faz a mistura do bem e do mal que se nota hoje em dia na natureza." “O homem, explica em seguida Saint-Martin, foi colocado na natureza para conter Lúcifer no elemento puro; ele é formado pelo fogo, do princípio da luz, “ e do princípio quintessencial da natureza física ou elementar. ” No entanto, ele se deixa atrair mais pelo princípio temporal da natureza do que pelos dois outros princípios", e caiu no sono da matéria. (...) " “ As duas outras substâncias, uma ígnea e a outra aquática, que deveriam estar reunidas no homem, e se identificar com a Sabedoria ou Sophia - mas que estão agora divididas - se procuram mutuamente com ardor, esperando encontrar na outra essa Sophia que lhe falta. ”[7]

Assim a sabedoria divina se encontra colocada em um local chave pois o homem deve se identificar com ela para encontrar o princípio da Luz.

“ O homem descobrindo a ciência de sua própria grandeza, aprende que se apoiando sobre uma base universal, seu Ser intelectual se torna um verdadeiro Templo, que as chamas que devem iluminá-lo são as luzes do pensamento que o cercam e seguem por todos os lados; que o Sacerdote, é sua confiança na existência necessária do Princípio da ordem e da vida; é essa persuasão ardente e fecunda diante da qual a morte e as trevas desaparecem; que os perfumes e as oferendas, sejam sua oração, seu desejo e seu zelo para o reino da exclusiva Unidade; que o altar, seja essa convenção eterna baseada em sua própria emanação, e à qual Deus e o Homem se entregam, para aí encontrar um a sua glória e outro sua felicidade; em uma palavra, que o fogo destinado à consumação dos holocaustos, esse fogo que não deve jamais se extinguir, é o dessa faísca divina que anima o homem e que, se ele for fiel a sua lei primitiva, teria feito para sempre como uma lâmpada brilhante colocada no caminho do trono do Eterno, para iluminar os passos dos que estão afastados; porque enfim o homem não deve mais duvidar que tenha recebido a existência apenas para ser testemunha viva da Luz e da Divindade. ”[8]

Essa citação da Tábua Natural, nos mostra bem claramente o caminho de Saint-Martin. Todos os aspectos visíveis e exteriores, as chamas, os perfumes, as oferendas, o altar são interiorizados. O caminho não consiste em perseguir sua busca pelo intermédio dos ritos visíveis, mas de começar pelo caminho interior que leva ao trono de glória onde está o filho de Deus e de se elevar em seguida pela via certa até o Eterno presente em nós. Esse caminho foi o do Filósofo Desconhecido mas sem permanecer mera especulação. Vai se tornar uma elevação interior pela oração, zelo e desejo da unidade em Deus. Algumas frases do “Ministério do Homem Espírito” ilustram isso muito bem: “Por um lado a magnificência do destino natural do homem é não poder real e radicalmente querer por seu desejo a única coisa que ele possa real e radicalmente produzir. Essa única coisa é o desejo de Deus; todas as outras coisas que levam o homem, não o apetecem, ele é o escravo e brinquedo. por outro lado, a magnificência de seu ministério é de só poder real e radicalmente agir segundo a Ordem positiva a ele pronunciada a todo instante, como o mestre a seu servidor e isso pela única autoridade que é equitativa, boa, consequente, eficaz e em conformidade com o desejo eterno.”[9]

Quem sente esse chamado, essa vontade de andar no caminho ascendente torna-se assim um homem de desejo, animado do desejo de Deus. Esse caminho que leva à iniciação espiritual torna-se com Saint-Martin uma via de oração e ascetismo, bastante independente das vias exteriores conhecidas nessa época. Não rejeita nada e mesmo se em um ritual simbólico uma chama for acesa, essa não torna em prioridade um suporte mágico, mas a materialização de um estado interior. Isso não impede Saint-Martin de estudar o universo de uma maneira que hoje em dia nos parece muito moderna e citaremos apenas algumas frases por prova: “ É incontestável que a matéria existe somente pelo movimento, porque nós vemos que quando os corpos estão privados do que lhe é concedido por algum tempo, eles se dissolvem e desaparecem insensivelmente (...) É evidente que a extensão só existe pelo movimento...”[10]

Por uma imagem célebre, o universo é então comparado a um livro: “a causa primeira ou Deus sendo o escritor, a natureza sendo o livro escrito e o homem o leitor. Mas esse leitor não compreende ou frequentemente compreende mal, o sentido exato das páginas do livro. É preciso ter a inteligência de meditações pacientes.” [11]

Hoje é absolutamente evidente para todos, que Saint-Martin é o inspirador por excelência de uma via que veio de Jacob Böhme. É ainda mais clássico de opor, como já fizemos, à via exterior de Martines muitas vezes no propósito, de rejeitá-la ou de desacreditá-la. Mas para alguns a prática mística se limita na observância de um caminho passivo, estático, imobilista qualificado de “Martinismo e via cardíaca". O que nós chamamos de imobilismo místico? Essa prática ou esse estado de espírito consiste, sob o pretexto de uma prática interior, a se contentar em se submeter aos eventos, a confundir oração e vigilância interior com meditação passiva e estéril. Acreditar que se possa, nessa via, avançar a deus cultivando tal atitude mental é muito certamente um erro. Não diríamos a mesma coisa se falássemos de outra via. Mas descrevemos aqui o que é o Martinismo e não essa ou aquela escola oriental, que tem evidentemente um valor inegável.

Os homens de desejo dos quais fala Saint-Martin são os homens de ação, de fogo e não os fatalistas que escolhem uma atitude fugaz e condescendente frente à vida e suas circunstâncias. Eles não se deixam submergir pelas impressões ou influências do invisível. Eles têm em si o desejo de Deus, o desejo do conhecimento e da sabedoria. Eles não se deixam enganar por esse oceano que são o universo e a vida. O martinismo  se levanta e caminha até a porta. O Evangelho não diz "Bata e se abrirá"?

O homem de desejo é um homem de ação, mas não, segundo a via de Saint-Martin, um mago. Entretanto, como dissemos, Saint-Martin não preconiza a via passiva, mas a via interior! Acreditava-se demasiado que se a via fosse interior, se tornaria meditação passiva, distinta da ação exterior, via de Martines. Mas não é assim. Basta olhar para a vida do Mestre Philippe de Lyon para perceber o que Saint-Martin desejava. O homem voltado para seus semelhantes os ajuda realmente, a todo instante, não somente pelos planos invisíveis - o que seria muito fácil - mas por sua presença efetiva entre os que sofrem. A via interior se desenvolve pela oração, pelo retiro em seu templo interior. 

A via cardíaca do Filósofo Desconhecido é paradoxalmente uma via que se situa tanto no visível quanto no invisível. É uma via de desejo entendida como um puro dinamismo, uma vontade.

Não é coberto com seus símbolos rituais e vestido de branco, que o Superior Incógnito se apresentará às doenças do corpo e da alma, mas velado, incógnito, agindo pelo intermédio do coração que fala a língua do amor. Nenhum traço de passividade nesse homem de desejo que pode se elevar, meditando em si mesmo as santas escrituras, a via dos antigos, buscando a união com Deus. A ação exterior somente será a materialização de um estado interior; “buscai o reino de Deus e  o resto vos será dado...”

Assim definida, a via martinista se descobre sob uma nova orientação, com uma força e uma grandeza que está longe de desaparecer, ainda que ela seja às vezes difícil de reconhecer. Saint-Martin escreveu livros que estaríamos muito interessados em estudar, mesmo que pareçam difíceis. Uma mensagem, uma experiência e um caminho estão contidos lá, que só podem acender em nós a chama adormecida. Mas se Saint-Martin escreveu, nós poderíamos ver que ele também transmitiu, “duas letras e alguns pontos” dizia Papus; mas também um influxo, uma iniciação. É a abertura de uma porta, a do S.I., Superior incógnito, Servidor Incógnito - não importa o termo - a porta do coração, que a tradição martinista perpetuou. Abertura, mas também transmissão de um espírito, de uma concretização simbólica e além das duas letras, de algumas luzes suplementares. O depósito de Saint-Martin foi salvo, Papus e outros puderam, 80 anos depois, revelá-la dando-lhe uma forma e conteúdo suplementares.


[1]. Ibid, p. 43.

[2]. R. Amadou, Louis Claude De Saint-Martin, Ed. Adyar, 1946.

[3]. Ibid.

[4]. Jacob Böhme, A Aurora Nascente ou a raiz da filosofia, astrologia e teologia, traduzido do alemão pelo Filósofo Desconhecido, Ed. Arché 1977, p. 7-8.

[5]. Psychologia Vera, questão 1-48, citado por A. Faivre em sua obra: Kirchberger e o Iluminismo no século XVIII, Arquivos internacionais da história das ideias, Martinus Nijheff, Lahaye, 1966.

[6]. A. Faivre, Op. Cit., p. 163-164.

[7]. Ibid., p.167.

[8]. Cité dans : Sobre o Martinismo e as Ordens martinistas, J. Boucher, Ed. Dervy, 1953, p. 16-17.

[9]. Ibid, p. 14.

[10]. Ibid, p. 14.

[11]. Ibid, p. 17.